O trailer é engraçado, mas será que o humor de Sasha Baron Cohen ainda funciona? Veremos quando o filme estreiar. Por enquanto…..
Não lhes parece familiar?
Meu caro Dinho Ouro Preto,
Em primeiro lugar, gostaria de, através desta carta, exaltar sua coragem. Sua banda, o Capital Inicial, é uma das mais massacradas pela crítica nos nossos tempos e sua postura em cima do palco é sempre motivo de chacota. Você já deve ter ouvido por aí as chacotas que fazem de você, muito por causa de seus bordões: “e aí galeeeraaaa”, “o público de (insira aqui sua cidade) é o público mais rooooque do Brasil!” são os dois mais famosos e divertidos, na minha opinião. Mas até aí, tudo ok. Afinal there’s no business like show business e isso tudo faz parte do seu show.
Então, no ano passado, fiquei sabendo que você lançaria um disco solo de covers. Vamos jogar a real? A primeira coisa que vem à mente quando um vocalista de uma banda solo lança um trabalho de covers é: “ih, a banda acabou ou vai acabar”. Não parece ser o caso, certo? A segunda coisa é: “a banda não tem mais o que dizer e o cantor resolveu lançar isto para não ficar à toa”. Humm, talvez seja o caso, mas isso você é quem vai me dizer. Anyway, me parece mais um caso de “vou satisfazer meu gosto pessoal e lançar um disco com músicas que eu gosto” do que qualquer outra coisa. Acertei?
E aí, há algumas semanas, ouvi sua versão para “Nothing Compares 2 U”, que eu considero um clássico do cancioneiro pop na voz de Sinéad O’Connor. Talvez a música mais bela do Prince que ele não gravou (ok, ele a cantou depois, mas isso é outro papo). Os 30 segundos ou pouco mais que ouvi foram suficientes para me deixar com um sentimento: será mesmo que isso é sério? Será mesmo que o Dinho Ouro Preto é capaz de tirar toda e qualquer emoção das músicas e fazer uma interpretação como esta, asséptica? Fiquei curioso e corri atrás do seu disco. Consegui uma cópia hoje e me pus a ouvir. “Você não tem mais nada pra fazer?”, “Você está se torturando por que?”, “Porque tu faz isso com sua vida?” foi o mínimo que os amigos de bom senso me disseram, via redes sociais. Mas eu insisti e fui em frente.
Antes de entrar no disco propriamente dito, quero dizer apenas que já havia lido a lista de faixas no site de um amigo e não acreditei. Aliás, a incredulidade foi geral. Ele vai cometer estes pecados? “Hallelujah”? “Love Will Tear Us Apart”? “Dancing Barefoot”? Fiz uma brincadeira com os colegas de trabalho: me pus a cantar “da maneira Dinho” as canções para as pessoas ouvirem, guardarem na memória e compararem com as versões reais quando elas fossem lançadas. Dinho, sou obrigado a dizer: sou melhor imitador de você do que você é de você mesmo.
Sabe, Dinho, é aí que mora o problema: em momento algum no disco você passa veracidade. Soa tudo falso, sem sentimento e, pior, caricato. A única coisa boa que consigo tirar desta sua empreitada é que, por algum caminho tortuoso, consigo imaginar um fã do Capital Inicial, destes que consomem tudo o que lhes é empurrado pelas rádios convencionais (nem todos são assim, mas você sabe como a engrenagem funciona, certo?), indo atrás de alguma coisa de Nick Cave ou Leonard Cohen, para entender quem são os artistas coverizados por você neste disco. Porque só sob esta hipótese não vou pensar que você fez este disco apenas para satisfazer apenas seu ego.
Por décadas eu ouço entrevistas de artistas dizendo que devem fazer música que acreditam, que a verdade tem que transparecer para o público. E aí eu fico na dúvida, Dinho: você fez esse disco para satisfazer seu ego, porque acredita no projeto ou porque quer oferecer mais alguma substância à parcela de seus fãs que não se interessa pelo assunto? Pensando bem, não sei se esta resposta é tão importante, porque independente disso, o resultado final não ficou bom, meu caro. Talvez para você tenha ficado. Talvez você acredite no projeto e seu ego esteja satisfeito, e talvez você até consiga ensinar um pouco de música para seu público, mas a forma é errada. Não se diz para um moleque de 15, 16, 17 anos, que “Hallelujah”, de Leonard Cohen, é esta música que você gravou. Se este moleque pegar, sei lá, a versão do Rufus Wainwright ou a versão que o próprio Leonard Cohen disse ser a definitiva – a de Jeff Buckley – ele verá que a sua é inferior. E seu tiro vai sair pela culatra.
Portanto, vou deixar esse papo de que você fez o disco para ensinar aos fãs de lado. Vou preferir que você me diga ou alguém mais o faça. Vou me concentrar no disco agora, depois de tantas digressões. Já falei de “Hallelujah”….o que sobra? Ah sim, vou começar por “Steady as She Goes”? Raconteurs…Jack White…..rock é o que vem à cabeça! Pois então, de onde você tirou que ela ficaria boa desta forma, com esse arranjo pop chumbrega? Logo você, que brada aos quatro ventos que o rock and roll é isso, é aquilo, blá blá blá, fez a versão menos rock que a música poderia ter! Agora você ficou magoado, não ficou? Pois é, a intenção foi essa. Com esta música, você provou que seu discurso de rock à toda prova é da boca pra fora.
O que mais? Ah sim, “Love Will Tear Us Apart”. Se isso pode ser tomado como um elogio, você até canta bem na música, mas Dinho, pensa, a música é cruel…love will tear us apart….o amor vai nos separar rasgando de novo, numa tradução livre. Cadê essa emoção na sua versão? Sua preocupação em seguir a melodia e pronunciar todas as palavras se sobressaem mais do que qualquer outra coisa. Você bem sabe que música é emoção, não sabe? Eu sei, estou parecendo um jurado de American Idol mas escrevendo isso vejo que faz todo sentido o que os caras dizem lá no programa para os coitados dos candidatos a ídolos. Duvido que Simon Cowell aprovasse essa sua versão. Mas talvez ele aprovasse a do Nouvelle Vague. Conhece?
“Dancing Barefoot”. Me recuso a comentar essa, Dinho. Você vai ficar mais puto comigo do que você já deve estar, se é que críticas te afetam.
“Suspicious Mind”. Mais uma que entrou na categoria “Que Porra é Essa, Dinho?” Não vou entrar no mérito de te comparar a Elvis, né? Vou te comparar ao Fine Young Cannibals, que fez uma cover bastante pop e interessante há algumas décadas. Em ambos os casos, sabe o que tinha por lá e não tem na sua? Sexo! Cadê a sensualidade, Dinho? Cadê a vontade de as meninas dançarem, tirarem as roupas e se jogarem para cima do cantor?
Dinho, eu poderia gastar ainda mais espaço aqui detalhando as outras canções mas acho que você e quem mais estiver lendo isto, já entendeu(ram) meu ponto. E só agora fui olhar o nome do disco: “Black Heart”. Não sei qual sua explicação para o nome, e tenho certeza que você deve ter uma, mas eu só consigo pensar no seguinte: “coração negro”. Sem alma, sem sentimento, sem veracidade, sem força, vazio. Se você me permite uma sugestão, depois disso tudo, mude o nome do disco para “Empty Heart”. Vai soar mais…..verdadeiro.