Logo depois da sessão de “Antes da Meia-noite” ontem à noite, discutia o filme com uma amiga e ela me lembrou de uma sequência de filmes que guarda muitas semelhanças com a trilogia de Richard Linklater, Julie Delpy e Ethan Hawke: “Um Homem, Uma Mulher”, de Claude Lelouch, com Jean Louis Trintignan e Anouk Aimee. Vinte anos depois, Lelouch reuniu o casal para construir e descontruir a história e tentar descobrir o que se passou com eles neste período. “Um Homem, Uma Mulher” foi para a geração que hoje tem 60 ou 70 anos de idade o que a trilogia “Antes” é e foi para a minha. E é por isso que algo me diz que estes três filmes não devem dizer tanto para outras gerações, principalmente as mais novas.
O motivo é simples. No primeiro filme, Jesse e Celine (Ethan Hawke e Julie Delpy) tinham 20 e poucos anos e eram aspirantes à vida. No segundo, na casa dos trinta, eles já se deparavam com as primeiras crises da vida adulta. Agora, no terceiro, aos quarenta anos, eles enfrentam a primeira crise de meia idade, agravada pelo fato de agora serem um casal, com duas filhas de nove anos de idade. Ou seja, igualzinho à sua, à minha, à nossa vida. Assisti o primeiro filme aos 23 anos de idade, o segundo aos 32 e o terceiro agora aos 41. As mesmas idades de Jesse e Celine. Seus medos, angústias, anseios, dúvidas e demais sentimentos são muito parecidos com os meus, em todas as fases da vida. Os diálogos ditos pelo casal na telona, ao longo dos três filmes, poderiam ter sido ditos por mim e até foram em determinados momentos. Por isso o filme emociona, deixa a garganta fechada e até causa uma reação parecida com a de um soco no estômago em alguns momentos.
Sem entregar muito do filme, dá pra dizer apenas que Jesse e Celine potencializam em diálogos sentimentos que todos nós temos no nosso íntimo mas não conseguimos externar. Não só eles externam isso durante toda a projeção, como chegam nos limites, nos fazendo acreditar que qualquer problema de casal é possível de ser resolvido apenas com o diálogo. E como eles dialogam! Celine é, de longe, a que mais enfrenta seus limites, empurrando Jesse para os dele, passando do ponto em muitos momentos, voltando atrás, nos dando a impressão de que a relação vai sucumbir e nos mostrando que é uma mulher que trabalha o emocional e o racional simultaneamente, ainda que seus atos não deixem transparecer isso. Jesse é o centrado. Aparentemente. Se no filme anterior, ele se mostrava perdido, agora sabe muito bem o que quer. E é exatamente por isso que provoca o maior conflito deste terceiro filme e da relação do casal (não se preocupem porque não vou contar). Por vezes, Jesse parece ser um bobo, mas no segundo seguinte percebemos que sua inteligência é emocional e traz Celine para seu mundo quando ela parece querer sair dele.
Como se tudo isso não bastasse, o filme ainda termina de maneira sublime. Não tanto quanto em “Antes do Por-do-Sol”, mas ainda assim anos-luz à frente de qualquer filme hollywoodiano feito nos dias de hoje. “Antes da Meia-noite” é o encerramento perfeito para uma trilogia que nenhum de nós quer que ela termine. Será que podemos contar com mais um, dois ou três filmes daqui a 10, 20 ou 30 anos?
Eu não curto Game of Thrones, mas não tem como não gostar deste mashup com um clássico do cinema nacional, “Cinderela Bahiana”.
Trekkers, regozijai-vos!
Depois de muita desconfiança em relação ao que JJ Abrams poderia fazer com uma das séries mais cultuadas da história, o criador de Lost e capo di tutti capi da Bad Robot respirou fundo e fez um reboot da série sensacional em 2009. Era óbvio que o sucesso do primeiro filme seria premiado com uma continuação. Agora, sem a pressão incial e com a confiança dos trekkers, JJ Abrams pode trabalhar mais sossegado. O resultado?
“Além da Escuridão: Star Trek” é ainda melhor que o primeiro filme e poucas vezes nos últimos anos um filme teve tão bem distribuídas as dosagens de humor, aventura, romance, suspense e surpresas. Se você é um fã da série, não deixe que estraguem seu prazer de ir ao cinema e dar de cara com uma cena sensacional em homenagem à série de filmes anterior e mais uma grande surpresa envolvendo um personagem. Daquelas dignas de ouvir a sala de cinema inteira dizendo “ooooooh”
Não dá pra adiantar muito da trama. Só dá pra dizer que Kirk, Spock e sua turma vão atrás de um inimigo que declara guerra à Federação Estelar. O inimigo, interpretado magistralmente por Benedict Cumberbatch (o Sherlock Holmes da série de tv), guarda muitos segredos e desde o início sabemos que a história vai tomar outro rumo. Só não sabemos para qual direção.
Dizer mais do que isso é estragar a surpresa. Uma dica: esqueça o 3D. Não faz muita diferença e ainda atrapalha a experiência ao tornar a projeção um pouco mais escura. Mas não deixe de ver na sala escura. Faz toda a diferença neste caso. E fica a esperança que JJ Abrams possa fazer com a série “Star Wars” o que tem feito com “Star Trek”. Mas por favor, JJ: um pouco menos de efeitos de luzes.
Pobre Renato Russo. Quem conheceu o cara ou pelo menos quem acompanhou sua trajetória sabe que ele até poderia topar ser alvo de uma cinebiografia, mas nunca este “Somos Tão Jovens” que está em cartaz nos cinemas brasileiros. Renato assistiria ao filme, poderia até se emocionar com algumas partes dele, porque retratam passagens de sua vida, mas não aprovaria o conteúdo final. Porque? Porque é um filme ruim.
Ok, não chega a ser de todo ruim. Mas é seco, sem emoções. A única cena que causa alguma reação é a sequência final, que mostra o último show dele em Brasília, antes de partir para o Rio de Janeiro. Obviamente não vou contar o que acontece para não spoilar, mas fique com isso na cabeça quando for assistir. O resto é uma perda de tempo. O tempo todo passeamos pela história de Renato Russo, de sua banda Aborto Elétrico, da formação da Legião Urbana e da turma da Colina, em Brasília, sem esboçar nenhuma reação. A história é apenas contada, mas não se conecta com o espectador. Uma falha gravíssima em um filme. E de quem é a culpa?
Em primeiro lugar, do diretor Antônio Carlos Fontoura, que um dia já nos deu o “clássico” “Espelho da Carne”. Aquele mesmo, com Daniel Filho, Dênis Carvalho e aquela cena. Nos últimos tempos, Fontoura tem se dedicado a películas um tanto quanto duvidosas, como “Gatão de Meia Idade”. Vamos combinar: Fontoura nunca foi um diretor de mão cheia e reafirmou sua condição neste filme.
E aí vamos para o elenco. Ok, os protagonistas estão bem (Thiago Mendonça e Laila Zaid) e as cenas entre os dois são a melhor coisa do filme. O resto passa batido. Ninguém no jovem elenco se destaca e até mesmo a talentosa Bianca Comparato, que interpreta a irmã de Renato, Carmem, fica apagada. Mas isso nem é o pior. Algumas interpretações são tão caricatas, que os personagens reais, quase todos ainda vivos e pulsantes, devem ter sentido uma espécie de vergonha alheia ao se verem retratados na telona. Principalmente Herbert Vianna e Dinho Ouro Preto. Felizmente a pior performance de todas não pode ser conferida por seu semelhante na vida real, já que André Pretorius morreu de overdose em 1987.
Por fim, o roteiro. Baseado na biografia de Renato, mostra sua vida antes de a Legião Urbana partir para o Rio de Janeiro e começar sua escalada de sucesso. Uma escolha até inteligente, já que trata-se de um período fértil, mas a quantidade de personagens que entram e saem sem maiores explicações, acaba por atrapalhar e fazer com que ele se perca. É difícil identificar quem é quem no emaranhado de bandas e pessoas que frequentavam a turma da Colina e fizeram o rock de Brasília naquela época. Faltou explicar melhor quem era a Plebe Rude, qual era aquela banda com a menina cantora, entre outras coisas.
Um pena que “Somos Tão Jovens” tenha resultado neste produto tão fraco. Uma história rica, um personagem mais rico ainda e cheio de nuanças, que fez parte de um momento ímpar na história da música brasileiro, merecia muito mais. Na dúvida, fique com o documentário “Rock Brasilia”, de Vladimir Carvalho, que retrata de uma maneira bem melhor o que aconteceu por lá.
Dave Grohl comprou uma mesa de som para seu estúdio 606. Mas não era uma mesa qualquer. Era uma Neve, que havia pertencido ao lendário estúdio californiano Sound City e que havia gravado, entre outros, clássicos como “Fleetwood Mac”, de 1975, “Damn The Torpedoes”, de Tom Petty & the Heartbreakers e o próprio “Nevermind”, do Nirvana. Isso tirando o fato que só haviam sido fabricadas mais três mesas iguais no mundo.
Porque não contar a história da mesa? Mas como contar a história dela sem passar pelo Sound City? Nascia assim o documentário “Sound City” que conta a história da mesa, do estúdio e dos discos que ali foram feitos. Mas isso é só o começo. Porque “Sound City” é, na verdade, uma grande declaração de amor dos músicos para uma era onde o digital e a música na nuvem eram apenas especulação. O que reinava era o analógico, o som bem tirado dos instrumentos, a captação perfeita e gravação em fita.
Para um fã de Fleetwood Mac como eu, é particularmente interessante ver Mick Fleetwood falando do primeiro contato que teve com Stevie Nicks e Lindsey Buckingham – exatamente no Sound City, onde a dupla tinha gravado o subestimado “Buckingham Nicks” e onde Fleetwood estava à procura de um estúdio para o próximo álbum. As declarações de amor não param por aí. Dos funcionários do Sound City a artistas como Rick Springfield, Metallica, Tom Petty e Rage Against The Machine (cujo primeiro disco foi gravado no Sound City, ao vivo, e com platéia), todos exaltam a acústica perfeita da sala, o ambiente e principalmente a mesa Neve.
Numa era onde a música é feita em notebooks e com o custo perto de zero, chega a ser surreal ouvir falar de discos que custaram 100 mil dolares e demoraram meses para serem gravados. Mas antes que você imagine que “Sound City” é um doc para iniciados, eu vou logo dizendo que não. Porque o sentimento que está por trás dele, é universal e pode ser entendido por qualquer um de nós: a paixão pela música em seu estado bruto.