Black Mirror: a realidade dentro e fora do virtual

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Aeroporto de Guarulhos, 11h30 da manhã de algum dia de outubro de 2016. Chamo um Uber para me levar até a Faria Lima. 13 minutos depois o carro aparece, o motorista pega minha mala, coloca no porta-malas, eu entro, ele me oferece balas, água, eu recuso e começamos a corrida.

No caminho, muito tempo para conversar. Fico conhecendo sua família inteira, ele me pergunta as amenidades de sempre (“o que vem fazer em São Paulo?”, “Tem família por aqui”?) até que chegamos na conversa mais importante do dia: o Uber. Depois de saber que ele é um motorista premium (eu nem sabia que existia esta parada), começamos a discutir o sistema de avaliações deles. Eis que ele me diz algo que eu não tinha como certo, mas imaginava: uma nota baixa dada pelo motorista para um usuário também pode resultar em prejuízos. Seus próximos chamados podem ser recusados caso sua nota esteja muito baixa e você pode até mesmo ser suspenso do serviço.

Nos despedimos combinando de nos darmos nota alta. Cinco pra cada um pra manter nossas médias altas. Saí de lá pensando no quanto este tipo de reconhecimento é típico do mundo em que vivemos, o mundo troco likes, me curte que eu te curto, onde as pessoas reclamam se não são reconhecidas virtualmente pelas outras. Uma necessidade de afirmação constante, que pode estar ligada à baixa auto-estima das pessoas ou mesmo a uma certa insegurança sobre tudo e todos.

Corta pra alguns dias depois, no mesmo mês de outubro. A série “Black Mirror”, que há tempos venho dizendo ser uma das melhores coisas já feitas, libera sua terceira temporada, com seis episódios, co-produzidos pela Netflix. E o primeiro episódio, ainda que transite bastante em um lugar comum, parece ter sido criado a partir da minha conversa com o motorista do Uber. A premissa é a mesma: e se o mundo fosse um lugar onde as pessoas precisassem ter notas altas nas redes sociais para sobreviverem? E se uma nota baixa significasse a perda de um privilégio, dos amigos, das riquezas acumuladas, da dignidade?

Realidade e ficção sempre se misturaram desta forma em “Black Mirror”, ainda que grande parte dos seus episódios falem de uma realidade que aparentemente não existe e sejam ambientados em um futuro não muito distante. É impressionante como várias premissas ali apresentadas estão próximas de nós. E mais ainda: na medida em que o tempo passa, vão ficando ainda mais próximas.

Este primeiro episódio é chocante exatamente por isso. Não tem performances arrebatadoras ou grandes reviravoltas na trama. Ele entrega exatamente o que a gente espera porque ele está bem próximo de todos nós e já imaginamos seu desfecho. “Black Mirror” provoca até mesmo quando parece ser comum.

Voltando um pouco no tempo, toda a premissa da série inteira é baseada na relação do nosso mundo com a tecnologia. Mas mudei um pouco a rota ao refletir um pouco sobre esta terceira temporada. Não se trata de um libelo contra a tecnologia e todas as suas resultantes no nosso dia-a-dia, mas uma espécie de alerta para cada um de nós: “o que estamos fazendo com nossa vida deixando que a tecnologia tome conta dela?”. O problema não está lá, mas aqui, ainda que não queiramos enxergar isto.

Quantas vezes você já se pegou dizendo que “o Facebook é uma droga” ou “vou sair das redes sociais porque elas só tem porcaria”? Já parou para pensar que as redes sociais são apenas ferramentas e que é preciso que alguém as abasteça de conteúdo? Porque algumas pessoas conseguem utilizar de maneira racional e outras não?

Outros episódios desta terceira temporada evidenciam bastante isto. O episódio 6, “Hated In The Nation”, poderia fazer parte de séries como “CSI” ou “Criminal Minds” (uma bela sacada de Charlie Brooker, criador de Black Mirror, que aproveita para fazer uma crítica à nossa ânsia por este tipo de produto televisivo, numa espécie de metalinguagem), incorporando temas como inteligência artificial e a exposição das vidas das pessoas nas redes sociais a uma investigação policial muito bem amarrada que parte da premissa simples de que as pessoas correm riscos ao fazerem isto. Já o episódio 2, “Playtest” faz um mergulho no mundo dos games e da realidade virtual, levando um jovem que se oferece para ser piloto de testes de um projeto secreto às últimas consequências.

Mas o episódio mais intrigante desta temporada é mesmo o 4, “San Junipero”. Exatamente por ser o único com um final (aparentemente?) feliz em toda a série. Nele, duas jovens se conhecem em uma discoteca dos anos 80 em uma cidade à beira-mar. Aos poucos vão se apaixonando e nós vamos percebendo que por trás daquelas noites que sempre acontecem aos sábados, está uma realidade aumentada, em que suas personas são inseridas em uma espécie de mundo virtual, ou um Second Life da vida real. O detalhe é que as duas, assim como todas as pessoas que vivem e/ou frequentam San Junipero, são velhas à beira da morte ou já estão mortas. Suas memórias permanecem ali vivas em um limbo virtual.

Ao final, as duas se apaixonam, se casam na vida real (em uma comovente cena ambientada no leito de morte de uma delas) e decidem passar a eternidade juntas em San Junipero. Um final feliz, certo? Difícil dizer, porque o episódio (brilhantemente escrito e dirigido) nos faz questionar nossa própria concepção da morte. Trata-se somente de um rito de passagem para alguma San Junipero e lá viveremos felizes para sempre? Ou a morte é definitiva? Pode uma tecnologia influir não só nesta percepção como mudá-la, fazendo com que encaremos a morte e outros sentimentos e ritos de passagem de outra forma? A eternidade é algo almejado por nós e feliz daquele jeito?

Este é o estado de “Black Mirror”: em constante desconformidade com o nosso bem estar. Uma série que não se propõe apenas a entreter, mas nos fazer refletir. Mais do que qualquer crítica ao mundo tecnológico, “Black Mirror” nos propõe um olhar para o que somos e o que pensamos.