Distopia e realidade

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Uma das lembranças mais legais que eu tenho da minha adolescência nerd é a de chegar na escola e comentar o programa de televisão da noite anterior. Principalmente séries que ocuparam o nosso imaginário durante um tempo, como “Armação Ilimitada” e “Tv Pirata”. Não existia tv a cabo, Netflix, torrents. Apenas a boa e velha tv aberta nos provendo algum conteúdo interessante.

O tempo passou e fomos nos acostumando com a quantidade de conteúdo gerada e despejada diariamente sobre nós, de tal forma que hoje não conseguimos dar conta nem de um décimo dela. E assim fomos sendo divididos em guetos ou bolhas de acordo com nossos gostos. Se você gosta de anime, existem as bolhas específicas para isto. Se gosta de séries mainstream, idem. Se gosta de séries underground ou música dos bálcãs, idem e idem.

Mas a necessidade de falar sobre o que consumimos não acabou na década de 1980. Muito pelo contrário, hoje somos cada vez mais especializados nos nossos microcosmos. Numa era onde todos temos opiniões sobre tudo, potencializadas pelas redes sociais, temos uma necessidade urgente de opinar, falar, discordar, brigar com quem não concorda, fazer as pazes e partir para o próximo episódio.

Aproveitando uma convalescência por conta de um resfriado que me deixou fora de combate por alguns dias, me joguei em alguns fóruns de discussão de séries de tv, mais especificamente os do Reddit. Caso você não saiba do que se trata, o Reddit é, segundo a wikipedia, “um site de mídia social no qual os usuários podem divulgar ligações para conteúdo na Web. Outros usuários podem então votar positivamente ou negativamente nas ligações divulgadas, fazendo com que apareçam de uma forma mais ou menos destacada na sua página inicial.” Esta é a explicação bem a grosso modo. O Reddit é uma espécie de reedição dos antigos fóruns de BBS (SDDS Metalink), em que se discutia sobre tudo e todos. Imagine que você faz parte de um grupo no Facebook em que vocês discutem suas séries prediletas. Agora eleve isso à enésima potência, em um local onde não existe censura e você vai interagir com milhares de pessoas do mundo inteiro, interessadas nas mesmas séries, muito mais nerds do que você ou do que grande parte dos que fazem parte do seu grupo no Facebook. Bem vindo aos fóruns do Reddit.

E tome teorias mirabolantes e discussões sem fim sobre uma determinada cena de um determinado episódio (ilustradas com prints e trechos do episódio, devidamente pirateados). Algumas séries, como “Mr. Robot” ou “Westworld” e “The Walking Dead” tem discussões que chegam a mais de 100 mil mensagens. Dá pra passar uma vida inteira lendo e discutindo as teorias sem que você perceba que o tempo passou.

A cultura de séries a que estamos submetidos nos leva para isto. Desde as discussões sobre “Lost” que não nos contentamos em apenas assistir ao produto acabado que nos é oferecido. Precisamos desconstrui-lo, teorizar sobre ele, ir atrás de easter eggs, ver os desdobramentos no dia seguinte em videos especiais no Youtube ou até mesmo assistir a um programa de tv que discute a própria série (“Talking Dead”, sobre “The Walking Dead”). Quase um contra-senso!

E tome reclamações sobre falta de tempo, sintomas de FOMA (Fear of Missing Out) aflorados e a vida social sendo colocada de lado em detrimento de mais e mais consumo de séries. Saudável para muitos, nem tanto para outros, esta cultura parece estar longe de ter atingido um limite. Mais e mais séries são criadas e despejadas todos os dias (reparem na quantidade de estréias semanais de conteúdo próprio da Netflix, por exemplo), nos fazendo reféns delas e mudando nosso comportamento. Saem de cena os encontros em bares, entram as reuniões em casa para assistir a mais um episódio. A violência e o medo de sair às ruas aliados à crise econômica contribuem para esta mudança.

E aí eu me lembro da premissa da série “Westworld”: um mundo de fantasia onde você paga para ter diversão a qualquer custo, interagindo com robôs. Visionária? Talvez em 1973, quando o argumento da série foi mostrado ao mundo pela primeira vez, no filme homônimo, escrito e dirigido por Michael Crichton. Hoje é apenas uma constatação do que está sendo colocado em prática no mundo ao nosso redor. Vamos deixar barato?