LA LA LAND E O RESGATE DE UM GÊNERO DIFÍCIL

Para entender o porquê de eu ter gostado tanto de “La La Land” (spoiler!), é preciso voltar um pouco no tempo. No meu tempo.

Cresci no cinema. Na minha adolescência frequentava as salas clássicas do centro de Belo Horizonte numa média de 3, 4 vezes por semana. Tudo isso por influência de meu pai, cinéfilo, que passou sua adolescência mais ou menos da mesma forma. A diferença é que na adolescência dele, nas décadas de 50 e 60, o cinema vivia sua era de ouro, com Hollywood reinando absoluta nos corações e mentes de todos e produzindo um sem número de filmes por ano. A era de ouro de Hollywood pegou meu pai de jeito e ele, além de passar para mim e para meu irmão o gosto de frequentar uma sala de cinema, nos apresentou a todos estes filmes clássicos. Fred Astaire, Ginger Rogers, Bob Hope, Gene Kelly eram os nomes que povoavam principalmente os musicais: símbolo de uma era ingênua nas telas e de um cinema que não tinha outras pretensões além da diversão. Hollywood, naquela época era a fábrica dos sonhos.

Corta para 2017. A sequência inicial de “La La Land”, ao som de “Another Day of Sun”, num impressionante plano-sequência em uma freeway de Los Angeles, já deixa clara a intenção do filme. “La La Land” não pretende problematizar questões do nosso tempo. Quer nos divertir e nos deixar com um sorriso na cara logo em seus primeiros segundos, e assim pelas 2 horas restantes. O musical é um gênero difícil nos dias de hoje. Talvez as gerações Y e Millennium não entendam bem sua proposta, porque o cinema tomou outros rumos e é difícil para muita gente assistir a pessoas cantando na telona. Mas para aquele adolescente que cresceu no cinema na década de 80 e ao mesmo tempo aprendia com o pai a apreciar este e outros gêneros clássicos, uma sequência como aquela – emulando até mesmo Busby Berkeley, um dos mestres deste tipo de coreografia, famoso pelas cenas aquáticas com Estther Williams – causa um efeito devastador. Para o bem.

Pode-se dizer que “La La Land” é uma sucessão de clichês. E é mesmo, mas e daí? Tenho uma teoria que se um clichê existe, é porque ele foi exaustivamente testado e aprovado e não dá pra dizer que ele é de todo ruim. Cinema não é apenas inovação. “La La Land” nos relembra isso, mostrando que uma história banal, inserida em um filme musical, com atores cantando e dançando, pode resultar em um grande de filme. Damien Chazelle, o talentoso diretor de “Whiplash”, que de certa forma transitou no mesmo universo na temporada 2015-2016, ao mostrar a história do professor de jazz carrasco e seu pupilo sonhador, deve ter tido uma infância parecida com a minha e mergulhado no universo dos musicais em algum momento de sua vida. E ele também devia saber que é possível fazer um grande, agradável e divertido filme a partir de uma história banal, mas com o elenco certo e as pessoas certas envolvidas. Emma Stone e Ryan Gosling não foram suas primeiras escolhas (Emma Watson e Miles Teller seriam Mia e Sebastian, mas o bom e velho conflito de agendas impediu que eles participassem – azar deles e sorte nossa), mas que bom que o destino quis que eles se encontrassem em “La La Land”. Dois dos atores mais carismáticos de Hollywood – e com uma química na telona invejável – são parte da chave para se entender o sucesso do filme.

Mas falta ainda um ingrediente, neste caso fundamental para que o filme funcione: a trilha sonora. Pense um pouco. Qual foi a última vez que você saiu de uma sala de cinema com vontade de dançar e, principalmente, com as canções do filme na sua cabeça? Hoje fazem quatro dias que eu assisti a “La La Land” e não consigo ouvir nada mais além da trilha sonora composta por Justin Hurwitz. Um detalhe importante que precisa ser ressaltado: diferente de outras trilhas de musicais modernos premiados, como “Chicago”, que é baseado em um musical da Broadway, “La La Land” é uma peça inédita. As canções foram compostas para o filme. Um risco e tanto mas que foi diminuindo consideravelmente na medida em que o filme foi conquistando as pessoas e as músicas caindo no gosto do povo.

“La La Land” é um daqueles casos em que tudo funciona em um filme. Para não dizer que é perfeito, existem uns 15, 20 minutos ali em seu segundo ato que ele quase cai em um buraco, quando o conflito entre os personagens principais atinge seu ápice. Mas rapidamente o filme volta a seu prumo com uma belíssima cena interpretada/cantada por Emma Stone em seu melhor solo na obra. A perfeição existe em alguns casos, mas em outros o fato de não ser perfeita é o que torna a obra tão admirável. Isso é “La La Land”, um filme para ver, rever e sonhar. Afinal, este não é apenas seu tema principal, mas seu intuito final.