Tenho uma amiga que diz que eu preciso ser mais jovem, que ando muito cansado, sem ânimo para coisas corriqueiras do dia-a-dia. Ok, pode até ser que ela tenha razão. Pensei bastante nisso quando resolvi embarcar para São Paulo para ver o Lollapalooza Brasil. Já é quase uma tradição: ao final de um mega festival eu digo sempre que foi o último, para depois de alguns meses me esquecer da promessa e embarcar para mais um. É assim desde 2009 quando enfrentei o Bonnaroo e tem sido assim pelos últimos 3 anos, pelo menos. Ano passado, ao final da minha segunda ida ao Bonnaroo, saí dizendo que agora sim era definitivo e eu nunca mais eu iria em um festival para 70 mil pessoas. A idade havia chegado, não consigo mais ficar andando de um lado para o outro em busca do melhor (e do pior) show, etc. Mas então, o que catso eu estava fazendo no Lollapalooza?
Bom, em primeiro lugar eu estava curioso para saber como os produtores conseguiriam reproduzir aqui o clima do Lolla Chicago, que tive a oportunidade de conferir em 2010. Festival no centro da cidade, em comunhão com a cidade (o skyline de prédios de São Paulo, ao lado do Jockey Club me lembrou bastante o skyline de prédios do centro de Chicago), bem simpático e que me deixou ótimas recordações. Conseguiram reproduzir? Em parte. Se na ambientação a coisa ficou parecida, o resto ainda não chegou no ponto. O próprio conceito do festival implica em várias coisas acontecendo ao mesmo tempo. Pelo menos nesta primeira edição do Lolla isso não aconteceu, a não ser pelos shows do palco alternativo – menor e com som mais baixo – que aconteciam simultaneamente aos de um dos dois palcões. O mesmo com a tenda eletrônica Perry’s, mas isso é menor. No Lolla Chicago, enquanto em um palco os Strokes se apresentavam, no outro Lady Gaga mostrava sua Monster Ball Tour. E o púbico tinha que escolher. Até porque não havia espaço suficiente para todo mundo assistir ao mesmo show. E talvez tenha sido este o grande problema do primeiro dia do Lolla Brasil.
Porque vamos combinar: o primeiro dia era um show do Foo Fighters com um monte de bandas abrindo. Por baixo calculo que uns 50% do público estava lá neste dia SÓ para ver Dave Grohl e sua banda. Então, dá pra imaginar o que aconteceu na hora do show, certo? Não havia espaço para uma mosca pousar. Fiquei com a nítida impressão que havia muito mais gente do que o local comportava. Impressão esta que foi comprovada no dia seguinte quando, segundo informações extra-oficiais, havia 20 mil pessoas A MENOS. Trocando em miúdos, o Lolla é um festival para 50 mil pessoas que ganhou 20 mil a mais no sábado por causa do Foo Fighters.
Por causa disso, outros problemas aconteceram: filas intermináveis nos caixas, logística complicada, pane nas redes de telefonia e internet e a complicada ida para casa, como sempre sem táxis suficientes e o metrô fechado depois de certa hora. Ok, é ruim mas dá pra perdoar, até porque é o primeiro dia do primeiro Lolla no Brasil. Vale dizer que todos estes problemas foram aparentemente resolvidos no dia seguinte. Saldo final: Lolla, você errou mas corrigiu. Está perdoado.
E aí vem o segundo motivo, que eu só percebi quando estava lá esmagado no meio da multidão para ver o Foo Fighters. Aquele motivo que é difícil de ser traduzido em palavras. Vamos colocar assim: eu poderia ter ficado em casa tranquilamente assistindo ao show pelo Multishow, no conforto do meu lar, degustando uma cerveja. Eu veria o show de uma maneira melhor, com todos os ângulos, em HD, com um som limpo. Eu teria tudo isso, mas não teria a sensação de frio na espinha que tive quando olhei para o lado e vi milhares de pessoas berrando “All My Life”, a primeira do show. Seus olhos podem encher de lágrimas ao assistir um show pela tevê, mas as lágrimas de quem está lá, presenciando tudo e se sentindo parte daquilo, são bastante diferentes. É o maior clichê de todos, no final das contas: a emoção de ver um show ao vivo é incomparável a de se ver pela tv. Mas ainda bem que ele é atual e é o motivo principal de todos nós voltarmos estrupiados depois de dois dias insanos correndo para lá e para cá atrás da boa música. Somos parte daquilo e ninguém tira isso de nós.
Estar ali muda tudo: um show que parece ruim pela tv é o melhor in loco; uma banda por quem você não dava a mínima te surpreende e te pega de jeito e até mesmo shows que não são tão bons assim acabam te contagiando pela energia de quem está lá assistindo e gostando. Aconteceu tudo isso no Lollapalooza Brasil, sem que eu pudesse escrever um roteiro de nada. Num festival não existe roteiro aparente do que vai acontecer, e ainda bem que não existe. O legal é ser surpreendido positivamente e negativamente.
E então, o que restou? Os shows. Vamos com calma, agora. Primeiro, o sábado, dia 7. Ou, “o dia do Foo Fighters”. O primeiro show que consegui ver foi Marcelo Nova e preciso confessar que não estava tão preocupado assim com ele. Minha maior preocupação era saber onde eram os palcos, como eu caminharia de um lado para o outro e, principalmente, onde eu encontraria água, já que o calor era de matar. Mas deu pra ouvir o velho Nova fazendo suas odes ao rock e dizendo que é um artista de um gênero em extinção: o rock. Tendo a concordar.
Na sequência, Cage the Elephant. Banda ultra nova, que faz música para as massas dançarem. E as massas dançaram, mas eu nao tenho mais 20 anos de idade. Não que eu não tenha dançado. Até balancei um pouco, mas o tipo de música que eles fazem não me diz nada além disso. É legal e só. Depois de 15 minutos já estou querendo sair para encontrar alguma outra coisa. Nem que seja um copo de Coca-cola gelada.
O Rappa. Vi pelo telão da sala de imprensa porque não tenho mais paciência para Falcão e seus asseclas. Isso diz tudo sobre o que eu achei do show.
Então veio o Band of Horses e aí sim o festival começou pra mim. Show classudão, com alternâncias de climas entre as canções mais rock e as baladas climáticas (apesar de eles terem me confidenciado em uma entrevista que vocês verão mais tarde que preferem privilegiar as canções mais rock num festival por conta exatamente deste clima de festa). Como bem observou o comparsa Terence Machado, a música que mais gosto deles – “Laredo” – não foi o grande momento do show. Lembra o que eu disse lá em cima sobre se surpreender positivamente? Banda of Horses saiu com o troféu de segundo melhor show do dia.
No outro palco, um caso interessante. TV on the Radio. Gosto bastante da banda, dos discos deles, mas algo ali, naquele momento, naquele contexto, não me soou muito bem. Talvez o som deles faça mais sentido num ambiente fechado (como no espetacular show que eles fizeram no extinto e saudoso Tim Festival há alguns anos), talvez o sol na cabeça tenha me impedido de curtir o show como ele deveria ser curtido. Amigos me disseram que foi um bom show e eu fico com a opinião deles. Pra mim, não fez muito sentido.
Joan Jett. Outro caso curioso. Fui disposto a gostar e gostei na medida certa. JJ dá de 1000 em muita menina que paga de rockstar. Aliás, nem sei porque a comparação. Joan Jett É a própria rockstar. Com jeito de garota mas com rugas que não deixam que a verdadeira idade fique escondida, mostrou o que muita gente almeja mas não consegue: autenticidade. Pena que não deu pra ver o show inteiro. Porque o final se aproximava….
Sabe o único ponto negativo que consigo encontrar no show do Foo Fighters? A voz de Dave Grohl, que está com problemas. Momentâneos, claro. O resto é como manda o figurino: recheado de hits, muitíssimo bem executados, com punch, peso, carisma, interação com o público. Tudo, tudo e tudo. Ok, eles entraram com o jogo ganho, mas nem assim é uma situação cômoda. O Foo Fighters mostrou que ainda é possível fazer rock de arena nos dias de hoje. Dave Grohl entrega ao público exatamente o que ele quer, muitíssimo bem auxiliado por uma banda ultra competente, com destaque absoluto para o baterista Taylor Hawkins, que chega a emular um Neil Peart em alguns momentos. A banda não perde muito tempo tocando lados B: vai direto ao assunto como se o show fosse um grande greatest hits de sua carreira, com direito a citações de seus ídolos, de várias formas: seja fazendo uma ode ao Jane’s Addiction (“o Led Zeppelin da minha adolescência”), seja citando Tom Petty & the Heartbreakers na guitarra, seja tocando uma música inteira do Pink Floyd, ou ainda recebendo Joan Jett para, juntos, tocarem os maiores hits da carreira dela. Quase perfeito, quase impecável, bastante catártico.
E então, partimos para o segundo dia, bastante estrupiado por conta da intensidade do primeiro, mas com a alma disposta a ser surpreendida. E logo de cara, o Gogol Bordello. Consegui ver apenas duas músicas deles. Não sou do tipo que odeia a banda e até me lembro de um show deles no Tim Festival bastante intenso. Portanto, fico achando que o resto do show foi igualmente divertido. Adjetivo que também serve para descrever mais dois shows desta noite, sem desmerecê-los: Friendly Fires (ótimos de palco) e Foster the People. O segundo, então, levantou a multidão com o hit “Pumped Up Kicks”. Bela banda pop (não confundir com bandas de rock, por favor), que tem um futuro bastante promissor.
Ah sim, antes teve o Thievery Corporation, que levou o troféu show errado no lugar errado. E também o troféu “show mais chato do festival”. Ainda bem que para compensar, existem bandas como o Manchester Orchestra, que pouca gente conhecia e acabou conquistando a multidão com seu rock com bastante distorção e uma pitada sulista (são de Atlanta, nos Estados Unidos). Belo show, bela banda e aquela sensação de estar descobrindo algo novo que cai muito bem.
MGMT. Já havia visto 3 shows deles, todos chatos. Fui descansar na sala de imprensa, mesmo porque a chuva apertou. E não foi praga minha.
Jane’s Addiction. Fui com uma expectativa alta e saí um pouco frustrado. Perry Farrel canta muito e Dave Navarro é um monstro na guitarra. Não há dúvida que os dois são figuras ímpares, mas o show não deu liga. Nem no hit “Been Caught Stealing”, queimado logo na quarta música. Não sei ao certo o que não deu certo. Talvez o público, que estava mais preocupado em chamar Perry de “Dinho Ouro Preto de maquiagem” do que entrar no clima do show. Ou talvez a culpa tenha sido do Skrillex, que se apresentava na tenda ao lado (que puta troço chato esse som do Skrillex). Talvez a melhor coisa destes dois shows tenha sido a sequência de espera nos P.A.s, antes do show do Jane’s Addiction: Radiohead, Police, Beatles e Pink Floyd, com direito ao melhor som de todo o festival.
E então, encerrando os trabalhos, Arctic Monkeys. Não havia visto a banda ao vivo, mas os acompanho desde sempre. O que mais me impressionou neste show (e neste sentido, talvez mais ainda do que o show do Foo Fighters) foi perceber o quanto esta banda cresceu e amadureceu. Não são mais os garotinhos indies de “I Bet You Look Good on the Dancefloor”, mas a banda de ROCK de “R U Mine”, o novo single e a música que mais me impressionou ao vivo. É gratificante ver uma banda crescendo e aprimorando seu som sob os olhos dos fãs antigos e, ao mesmo tempo, arrebanhando outros. Não que eu nunca tenha sido um fã, mas achava que eles eram apenas mais uma banda inglesa. Não são mais. Se diferenciaram e mostraram porque foram escalados como headliners do último dia do festival.
Ao final, não dá pra dizer que fui vencido pelo cansaço, até porque aguentei até o último acorde do último show do festival. Sei que muita gente por aí não aguentou e entregou os pontos. Fracos. Talvez vocês ainda não tenham entendido que a boa música é mais do que suficiente para se manter em pé por 7 horas correndo de lá pra cá em um festival. Tá bom, é preciso descansar um pouco, comer e beber para manter o pique, mas sem o ingrediente que não pode ser medido, tudo acaba sendo em vão. Que venham os próximos festivais! E me cobrem se eu cumprir a promessa de não ir….
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James, obrigada por contar de um jeito que só você sabe como foi o Lolla. Morri com os convites. Não pude ir por motivos muitíssimo pessoais mas adorei todas as críticas de todos os shows, melhor que ler em sites, blogs e tal. Só você e Lucio Ribeiro sabem fazer isso. Você é sensacional. Coloca fotos aê por favor! abração.
Crítica FO-DA. Tomara que você não cumpra a sua promessa, James. Tomara mesmo.
Ae James, tava lá e vc mandou bem a real. O festival mandou bem de ter pessoas rodando vendendo fichas (a maioria dos meus amigos não percebeu e pegou fila, eu não peguei nenhuma além da primeira vez) e chopp. Acho que foi um início excelente, nada como anos de estrada para arredondar um festival. Faltou mesmo uma escalação nacional convincente, de bandas que podiam fazer bonito e ganhar público, tipo Eddie, Móveis, Nação no lugar do Rappa, enfim…de resto o festival me pegou de forma parecida que você descreveu, cansado estou mas o sorriso largado no rosto ainda vai durar um bom tempo…