Parece que foi ontem que um história atravessada de uma banda que teve um disco rejeitado pela gravadora e disponibilizou (ou vazou, não lembro bem a ordem) na internet me pegou de jeito. A banda era, até então, uma destas que você ouve falar mas nunca dá muita bola. Chamava-se Wilco. Por conta disto, inclusive, passei a prestar mais atenção em bandas que até então não dava a mínima.
Já discuti Wilco e esse disco inúmeras vezes e, em uma daquelas discussões infinitas sobre qual Wilco é o verdadeiro – o antes ou o depois de Jay Bennett – e o porque de o Wilco ser o Wilco, qual seria o verdadeiro som, blá blá blá blá whiskas sachet, me peguei pensando no porque de YHF (se você não sabe que estas três letras são o apelido carinhoso do disco, então vá aprendendo) ser o meu disco favorito de uma de minhas bandas favoritas das duas últimas décadas, se não a mais.
Veja bem, estamos em 2001. Uma época pré-redes sociais, pré-opiniões sobre tudo, pré-preconceitos e pré-escutadelas rápidas porque não temos tempo pra ficar perdendo. Ainda vivíamos os últimos suspiros da música feita para ser ouvida e ainda tínhamos tempo para escutá-la. Se hoje passeamos por vários trabalhos, por mais densos que eles sejam, em 2001 as conexões à internet eram mais difíceis e baixar um disco não demorava segundos, mas minutos ou horas. Precisávamos de tempo para apreciá-lo. afinal o download havia demorado.
Qual disco baixar era a pergunta que nos fazíamos. E a informação do novo disco do Wilco começou a circular. De informação, passou rapidamente para opinião e ela era unânime: a masterpiece! O download se fez necessário e a audição iminente. E aí sim, depois de dez anos, posso confessar: não entendi a proposta do disco e do Wilco logo de cara. Alternative country? Mas que porra é essa? Eu quero é country rock!
Foram necessárias algumas audições – e aí fica a ressalva para quem escuta música apenas uma vez e já tem uma opinião formada sobre ela – para que eu conseguisse entrar no mundo do Wilco e não sair nunca mais. Nele, o feedback se misturava aos acordes harmoniosos. Percebia-se que o disco era fruto de um conflito. O lado melódico e harmonioso se debatendo com o lado experimental. Um choque de personalidades, como saberíamos mais tarde (em parte graças ao espectacular documentário “i Am Trying To Break Your Heart”), fundamental para a conclusão brilhante de uma obra única.
Dizem que os grandes trabalhos dos grandes artistas advém de conflitos. Um belo pé na bunda rende discos dor-de-cotovelo mas e quando o conflito é ideológico, de visões de mundo diferentes, que acabam por refletir na visão do que é música de qualidade? Jay Bennett e Jeff Tweedy eram assim, na virada do século. Personalidades diferentes que se chocaram na época em que começaram o processo deste disco. Para o bem ou para o mal (depende de que lado da história você está), Bennett deixou a banda. Ou “foi deixado”, já que Tweedy tomou as rédeas da banda para si e demitiu o amigo. É difícil definir onde começa a influência de um e onde termina a do outro neste disco, mas talvez isso não seja mais necessário para entendê-lo.
Muitas palavras talvez não sejam também. Yankee Hotel Foxtrot catapultou a banda para um patamar superior, depois de ser rejeitado por sua primeira gravadora (Reprise), causar um buzz, ser considerado uma obra-prima e ser oficialmente lançado no ano seguinte (2002) por outro selo (Nonesuch), ironicamente pertencente ao mesmo conglomerado (Warner).
Até hoje me pergunto o que estava na cabeça dos executivos da Reprise, que não entenderam o disco e dispensaram a banda. Talvez a resposta seja fácil e esteja debaixo de nossos olhos e ouvidos: tempo. É bem provável que eles não tenham tido tempo para degluti-lo corretamente. YHF é um disco que cresce com o tempo e consegue permanecer jovem, praticamente intacto, atemporal, 10 anos depois. Minha relação com a música mudou, e sempre que penso que deveria estar prestando mais atenção à música do meu tempo e ouvindo-a com calma, eu me lembro daqueles dias de 2001, quando percebi isso. Ou melhor, quando o Wilco me fez perceber isso.