Barulho. O significado desta palavra no dicionário passa por alguns nem tão agradáveis aos ouvidos assim, como “estrondo”, “grande bulha”, “tumulto”, “alarde”. Mas um em especial me chamou a atenção e tem bastante a ver com a performance de Lee Ranaldo ontem, no encerramento da versão belorizontina do Vivo Arte.mov: desordem.
Desde que a música conheceu o Sonic Youth e o mundo que girava em torno deles, palavras como barulho e desordem estiiveram relacionadas ao tipo de som que eles fazem. Descosntruindo, decodificando e reconstruindo o rock à sua maneira, o SY se tornou um dos nomes mais importantes deste universo. Nunca foram convencionais, nunca quiseram ser e sempre primaram pelo lado artístico, indo na contramão da indústria, ainda que esta por vezes tivesse se rendido a eles.
Por isso é fácil imaginar que seus integrantes se aventurem por outros tipos de manifestações artísticas, dentro e fora do viés musical, ainda que este esteja presente de uma forma ou de outra. Compositor, guitarrista (um dos 100 melhores da história, segundo a Rolling Stone), produtor, escritor e cantor, entre outras virtudes, Lee Ranaldo sempre me pareceu o mais “artista” da banda. Por “artista”, entenda-se exatamente uma soma disso tudo. Sem se preocupar com rótulos, mas tendo sempre em mente que o som que faz transita pelo barulho.
Difícil é tentar encontrar definições além disso para o som que Lee Ranaldo tirou de sua Fender no último domingo. Com o auxílio de baquetas, arcos de violino e pedais que emulavam distorções, ruídos e texturas, Lee construiu uma espécie de sinfonia do barulho, no melhor sentido possível. Se num primeiro momento, o som pareceu alto e feriu os ouvidos de muita gente, na medida em que o espectáculo avançou, o barulho fez mais sentido e se tornou palatável. Lee Ranaldo mostrou que seu trabalho dentro e fora do Sonic Youth prima pela exploração do ruído, levando isto às últimas consequências e produzindo sensações nas pessoas, antes mesmo de passar por qualquer tipo de compreensão do que está sendo feito.
“Sight Unseen” também se completa com os vídeos produzidos por Leah Singer, esposa e parceira de Ranaldo. Nos vídeos, situações cotidianas que vão desde uma criança caminhando em um gramado até um grupo de jovens em frente a uma praça. Além dos vídeos, a participação especial de um grupo de tambor da capital mineira, capitaneado por Lênis Rino, deu um tom especial à performance. Batuque e barulho se encontraram, como se os dois universos paralelos da série Fringe tivessem se chocado e formado uma só sinfonia. Fez sentido? Passada a estranheza inicial, fez todo o sentido do mundo. Assim como também fez sentido ver Lee Ranaldo ali, despido de qualquer amarra que possa ter no Sonic Youth, mostrando sua arte. Um verdadeiro privilégio e uma aula para quem quer se aventurar no mundo dos sons noisy.
Abaixo dois videos que consegui fazer. O som, por vezes, é inaudível, Mas, ah, faz todo o sentido ser, não é?