O cenário era o Poble Espanyol, um complexo cultural situado no Parque de Montjuic, em Barcelona, bem perto dos espetaculares Museu de Arte da Catalunha e Estádio Olimpico. Assim como seus vizinhos, o Poble Espanyol confronta o moderno e o arcaico de uma maneira que só Barcelona sabe fazer. Acontece que o maior confronto da noite do ultimo dia 22 de junho se daria exatamente às 10 da noite quando a potência do som que ecoou do PA do show do Portishead tomou conta do local.
Combinar potência de som e Portishead na mesma frase parece algo complicado de entender. Mas o som do Portishead é exactamente isso: potente, mas não somente em volume. As nuanças e texturas do som da banda acabam ficando em primeiro plano, deixando a potência propriamente dita em segundo, exatamente porque não é necessário. Para se ver e ouvir um show do Portishead, é fundamental um bom som. E nesta noite, em especial, o som estava mais do que 100%. Era possível ouvir tudo bastante definido, de qualquer lugar da praça central do Poble Espanyol (que diga-se de passagem, estava lotado com aproximadamente 5 mil pessoas) e se deixar entrar no som da banda.
Porque não há outra maneira de se entender o Portishead senão se deixar levar. Canções como “Silence” e “Sour Times” são verdadeiramente hipnóticas e causam um efeito devastador nas almas mais puras, como a minha. Sim, foi bem fácil me deixar levar pela voz de Beth Gibbons, que do alto dos seus 47 anos de idade, dá uma verdadeira aula de emoção em seu canto, principalmente no ponto alto do show, a arrebatadora e singela “Wandering Star”. Beth Gibbons canta a emoção como poucas pessoas no mundo.
Não foi longo, nem curto. Não foi uma mega produção, mas também não foi um show simples (os vídeos, projeções e demais aparições no gigantesco telão ao fundo são um espectáculo à parte). O Portishead é uma banda que não se preocupa em empurrar nada goela abaixo de quem os ouve. Quer continuar fazendo sua música no seu ritmo todo particular. Seja lançando um disco a cada dez anos, seja fazendo poucos e valiosos shows para públicos especiais. Se você é um destes felizes convidados para a ceia de Beth Gibbons, sinta-se um privilegiado. São poucos os artistas que conquistam um respeito e se tornam objeto de desejo ao mesmo tempo. Feche os olhos e embarque também nesta viagem.
SETLIST
Silence
Nylon Smile
Mysterons
The Rip
Sour Times
Magic Doors
Wandering Star
Machine Gun
Over
Glory Box
Chase the Tear
Cowboys
Threads
Encore:
Roads
We Carry On
E o video de “Wandering Star”: