Na empolgação por finalmente estar assistindo a um de seus artistas prediletos ao vivo, você pode até deixar um detalhe passar batido: o local do show. Já reparou como o local e, principalmente, as condições dele, são fundamentais para que uma apresentação musical funcione? Pode parecer meio óbvio, mas muitas vezes o fã não consegue ou não quer enxergar isso e prefere enaltecer tudo o que aconteceu ali, mesmo que o próprio artista ache ruim.
Pois então, pegue todas as condições favoráveis e junte num só espectáculo. Talvez chegue perto do que foi o show do Tom Petty & the Heartbreakers no Grand Rex, em Paris, no último dia 27 de junho. O local era mais do que apropriado: um antigo teatro, que também funciona como cinema, art deco, para aproximadamente cinco mil pessoas. O som também foi dos melhores já vistos por mim em uma apresentação musical. Nada de microfonias, instrumentos embolados e dificuldade para se entender algo. Tudo era audível nos quatro cantos do local. E então, a banda…
Tom Petty & the Heartbreakers é uma instituição. Você se lembra que eu os vi ao vivo há dois anos, em Atlanta. Naquela ocasião, eles estavam promovendo seu mais recente disco de estúdio, “Mojo”, o disco de blues. Agora, passada esta fase, a banda resolveu montar uma espécie de best of para esta turnê europeia. De “Mojo”, sobraram “I Should Have Known It” e “Good Enough”, a melhor música do disco, que acaba sendo o cartão de visitas no show para Mike Campbell, o guitar hero dos Heartbreakers, soltar o primeiro de seus muitos solos na noite.
E tome surpresa atrás de surpresa. A inclusão de “Handle With Care”, do repertório dos Traveling Wilburys, pode parecer óbvia, mas os Heartbreakers não costumam tocá-la. Por isso ela surge numa versão bem especial, com direito ao vocal de Scott Thurston, emulando o inesquecível Roy Orbison. A outra surpresa da noite é “It’s Good to Be King”, música de “Wallflowers”, que se transforma no grande momento do show, com um instrumental magnífico, e um duelo entre Petty e Campbell nas guitarras de tirar o fôlego.
Quer classicos? “Mary Jane’s Last Dance”, “Refugee”, “Learning to Fly” (na bela versão acústica), “I Won’t Back Down”, “Free Falling” e, claro, o já traditional encerramento com “American Girl”. Se na primeira metade do show, eu era o fã embasbacado por estar ali bem perto da banda, na segunda metade passei a ser o observador. Pescar os olhares, as deixas de um músico para outro e entender como funciona a dinâmica de uma instituição como os Heartbreakers não tem preço. As cinco mil pessoas que estiveram no Grand Rex devem concordar comigo.
Minha banda preferida. Belo texto, Rodrigo. Esta turnê está melhor do que aquela que vi no Madison Square Garden em 2010. A sorte de quem está no Brasil é que há vídeos no Youtube de todas as apresentações. Ah, segundo o site oficial, “I Should Have Known It”, do Mojo, também fez parte do setlist de Paris: http://www.tompetty.com/tour/date/id/132