WILCO E A RESIGNIFICAÇÃO DA MÚSICA

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Não posso falar por todos vocês, apenas alguns. Mas quero agora falar por mim. Você já deve ter percebido que a música ocupa um grande espaço na minha vida, sob todas as formas. Ouço, escrevo sobre, produzo, canto e até coloco outras pessoas para dançar quando atuo como DJ. Já fiz amigos por conta da música. Não, melhor: já fiz MUITOS amigos por conta da música. Gente que me acompanha desde sempre e compartilha o gosto comigo, gente que eu conheci há menos tempo e que também compartilha suas preferências. E até mesmo gente que não compartilha isso tudo, mas que respeito por tratar a música como algo importante, assim como eu.

Pensei muito sobre isso nos últimos dias e no quanto a música é importante para mim e não para outros. É fácil, extremamente fácil, dizer que a música está em todas as partes e que mais e mais pessoas ouvem música hoje. “Música é commoditie”. “A música está em todas as partes”. “Nunca se consumiu tanta música quanto nos dias de hoje”. Tudo verdade, mas nem é tão verdade assim.

Pode ser que você ouça música o dia inteiro e ela te faça bem, mas ela realmente faz parte da sua vida? Você se emociona com ela? Não estou dizendo simplesmente causar uma reação em você, mas algo ainda mais profundo. Ir até um show e berrar por seu artista predileto é uma coisa, ouvir um acorde e ficar com um frio na espinha, borboletas no estômago, sentir uma dor quase física, é outra. Ser arrebatado pela música é causar estrago na alma de uma maneira definitiva. Como aqueles momentos especiais que você já deve ter experimentado: o primeiro amor, o nascimento de um filho, a morte de um ente querido.

Nos últimos dias eu tive a oportunidade de ver três shows da mesma banda, o Wilco. Caso você me acompanhe há algum tempo, você já sabe que é uma das bandas da minha vida, que já me causou alguns estragos nesta alma de 44 anos de vida terrestre. Três shows em um espaço de quatro dias que me provocaram um sem-número de sensações, algumas fáceis de serem identificadas e outras que não só não consegui palavras para descrever como acho que nem preciso encontrar. A emoção verdadeira é assim, sem palavras.

O primeiro deles aconteceu no Circo Voador, bem ao lado dos Arcos da Lapa, no Rio de Janeiro. Uma espécie de caldeirão da música, onde todos os shows automaticamente são 40 ou 50% melhores do que em qualquer outro lugar. Um dos poucos lugares em que você fica na cara do gol, olhando nos olhos dos músicos, percebendo as interações entre eles e até mesmo se oferecendo para tocar, caso você seja um músico. Como fez o César, que pediu para a banda uma chance em cima do palco e foi atendido. Insano, visceral, sangue nos olhos. O sorriso de Jeff Tweedy ao final do show denunciava o que havia sido aquele momento. Tudo isso contribuiu para que eu saísse de lá cravando que nenhum dos outros dois shows da banda poderia superar aquele momento sublime. E nem vou entrar no mérito do setlist, inspirado como poucos.

Dois dias depois veio o show no Popload Festival, no Urban Stage, em São Paulo. Não me entenda mal: o show não foi ruim. Longe disso. Mas foi de longe o “menos bom” dos três. Show de festival, quase protocolar, tocado para as câmeras de tv, além do público que ali estava. Só que com o Wilco nada é 100% protocolar. Enquanto quase todos os outros artistas fariam ali uma apresentação mecânica, o Wilco torce esta lógica e entrega visceralidade, ainda que um pouco contida. Não posso dizer que saí de lá decepcionado, mas o local (grande), a atmosfera de “quero ver e ser visto”, o grande número de pessoas que caíram lá de paraquedas + o grande número de pessoas que lá estavam para ver o Libertines, contribuíram para que eu ficasse um pouco disperso. Não consegui curtir aquele show como ele deveria ser curtido. E por mais que a banda parecesse à vontade em cima do palco, não consegui ver os mesmos sorrisos do show do Rio. Entretanto, valeu por ser um grande reencontro de alguns dos tais queridos amigos que eu fiz ao longo dos anos por causa da música. Uma sensação diferente, em que estranhamente o que importou ali não foi exatamente a música, mas o efeito por ela causado.

Então veio o show do Auditório Ibirapuera, também em São Paulo.

Imagine o cenário: pouco mais de 800 pessoas, num teatro, com som perfeito. Era fácil dizer que este seria o melhor show da turnê, mas como diabos a banda poderia superar a perfeição do show do Circo Voador? Simples: trazendo tudo para uma zona mais intensa, reflexiva, quase minimalista e até mesmo religiosa, com momentos de devoção pura. Espertamente, o Wilco privilegiou canções em que as texturas melódicas pudessem ser apreciadas e o silêncio da platéia não fosse apenas reverente, mas se tornasse parte das canções. Impossível não se emocionar com as inspiradas performances da banda em canções como “Radio Cure” e “Reservations” do clássico “Yankee Hotel Foxtrot”. Canções que já causaram muitas sensações nesta velha alma desde que foram lançadas há 15 anos mas que conseguiram despertar algumas outras, ainda mais novas, em pleno 2016. E é difícil explicar porque canções como “Via Chicago” e “Misunderstood”, que já haviam sido tocadas nos outros dois shows, me fizeram chorar como criança. Seriam as texturas que não estavam 100% audíveis? A delicadeza das interpretações? A intensidade da banda naquele palco? A atmosfera geral?

Saí dizendo para os amigos que aquele show havia me derrubado. E foi assim mesmo. Eu não imaginava que ainda poderia me surpreender com uma performance como fui surpreendido com esta do Wilco. Uma noite que me fez repensar tudo o que eu sei sobre música e da capacidade da arte em geral de nos causar efeito e reação. Música não é apenas letra, melodia e arranjos. A arte não é o que está ali no primeiro plano. Tudo isso é bem mais profundo e, ao longo da vida, vamos cavando e descobrindo as tais camadas, que não eram acessíveis até então. O Wilco no Auditório Ibirapuera me fez chegar até uma nova camada e resignificar tudo o que eu sabia sobre música até então. Saca zerar a vida? Pois então….