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mar
10

carta para o fã de guns n roses

Olá amigo fã de Guns N Roses. Hoje quero conversar com você.

Mas na verdade não quero conversar com todos os fãs de Guns N Roses. Você, que acompanhou a banda no auge, no início da década de 1990, foi aos shows que eles fizeram na época e principalmente sabia que a banda era formada por cinco membros, está fora desta conversa. Quero conversar com os fãs mais novos. Principalmente aqueles na faixa dos 15, 20 anos que estiveram no Mineirinho ontem à noite para o show do “Guns N’ Roses”.

Eu consigo entender sua alegria por estar ali vendo aquele show. Afinal quantas não foram as vezes em que me peguei querendo ir a um show do Creedence Clearwater Revisited sem John Fogerty, ou Iron Maiden sem Bruce Dickinson. Ou, pior, Queen sem Freddie Mercury, The Doors sem Jim Morrison. Tudo isso pelo simples prazer de estar ali diante de uma instituição da história da música e ouvir os clássicos.

E ok, muitas vezes acabei indo para falar que fui. Mas alguma coisa sempre me soou estranho, principalmente quando voltava para casa, colocava os discos e percebia que não estava ouvindo aquele som. A óbvia resposta está ali debaixo dos nossos olhos e ouvidos, mas preferimos não enxergar e ouvir: a banda que está ali tocando não é a original.

Portanto, preste atenção nisso caro fã, o que você viu e ouviu ontem no Mineirinho e que está em turnê pelo Brasil não é o Guns N’ Roses. O GNR acabou em 1996 quando Slash anunciou sua saída. Pense bem no significado disso. Se em 1970 os Beatles tivessem continuado depois que Paul McCartney anunciou que estava deixando a banda, ainda assim seriam os Beatles? Pode até ser que a banda tivesse continuado, mas sem o Paul não dava mais pra chamar de Beatles, concorda? E o Queen depois que Freddie Mercury morreu? Não dava mais né. Pelo menos eles tiveram dignidade e voltaram décadas depois com o nome Queen + Paul Rodgers, que ainda assim evoca o passado. Mas já era outro trabalho, completamente diferente, longe do que fazia o incomparável Mercury. Quanto aos Beatles, desnecessário dizer o que aconteceu.

Daí voltamos ao GNR e ao conceito de banda. Ora, uma banda é formada por um guitarrista, um baterista, um baixista, às vezes um tecladista, às vezes mais um ou dois guitarristas, não importa. Contanto que todos estejam juntos, em prol de um objetivo. E para que ela funcione, deve haver uma unidade. Como existia com o GNR do final da década de 1980/início da 1990. Enquanto Axl era o frontman de rock perfeito, preenchendo todos os lados do palco e imprimindo uma personalidade única aos vocais, Slash era a alma rock da banda, criando riffs inesquecíveis para as canções (ou você consegue se esquecer do riff de “Sweet Child O’ Mine”?) e fazendo o contraponto ao parceiro. Para muitos (eu inclusive), Izzy Stradlin também contribuía para esta unidade, abalada com sua saída em 1991. Duff e Matt Sorum eram os músicos que se não brilhavam tanto, eram competentes no que faziam. Vale lembrar que, como quase toda banda de rock, passaram por inumeros problemas com drogas (Matt Sorum inclusive foi o segundo baterista da banda, depois que Steven Adler foi chutado pra fora por conta do seu “junkismo”) e não são poucos os casos de orgias e hotéis quebrados.

Tudo isso faz parte da história da banda que, a partir do momento em que Slash deixou de ser parte dela, se transformou em um arremedo. Contratar músicos para criar uma nova banda não significa que ela será a mesma banda de antes, percebe? O que Axl fez a partir de 1996 foi chamar vários músicos para fazer parte de seu barco, com mais furos que um queijo suíço. E levou sua megalomania às últimas consequências, gastando milhões para gravar um interminável disco (”Chinese Democracy”, que se não é tão ruim, também não chega aos pés do que ele já havia feito no passado com sua antiga banda, o Guns N’ Roses original) e agora embarcando em uma turnê mundial. Ao lado de músicos contratados.

Entendo que você não tenha ido a muitos shows de rock em ginásios ou estádios na vida. Além de nossa cidade não oferecer muitas opções neste sentido, você ainda é novo. E lá na frente com certeza vai perceber que existe mais no mundo rock do que isso. Você vai perceber que a banda que você viu não era o GNR, que o MIneirinho está longe de ser o ideal para shows de rock (isso eu já sei desde a década de 1980, mas sei lá porque continuam insistindo naquele monstrengo). Você vai ver e ouvir muita coisa genuína, com bom som e lugar confortável, se tiver disposição para isto e continuar “no rock”. Nem precisa ir muito longe. Peça a seu pai para te levar ou vá com a galera ao show do Aerosmith, em São Paulo, no fim do mês de maio. Ou o ZZ Top uma semana antes. Sim. é em São Paulo, mas se você e/ou seu pai tiveram dinheiro para pagar 500 reais na Pista Premium do show de ontem, tem como bancar uma viagem de fim de semana para São Paulo, certo? Você verá duas bandas veteranas, que ainda soam autênticas e promovem um espetáculo de rock, com música mas com muito jogo cênico também. Ah sim, antes que eu me esqueça. Fogos, explosões e papel picado são legais, mas não bastam.

Pense um pouco nisso tudo, mas não desista. Insista no rock. Porque vale a pena.

E se você quer saber como era o Guns N Roses na época em que eram uma banda, assista ao video abaixo:


QUEM SOU EU

Publicitário. Jornalista. Music freak. Áudio e visual. Day and night. Belo Horizonte. Mundo. Dj. Produtor. Galo. Programa Alto-falante. Aorta Entretenimento. Festival Garimpo. Verdade e mentira. Vai encarar?

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