Fala se não deu vontade imediata de ver este filme?
A BAND CALLED DEATH [Trailer] from Drafthouse Films on Vimeo.
Dave Grohl comprou uma mesa de som para seu estúdio 606. Mas não era uma mesa qualquer. Era uma Neve, que havia pertencido ao lendário estúdio californiano Sound City e que havia gravado, entre outros, clássicos como “Fleetwood Mac”, de 1975, “Damn The Torpedoes”, de Tom Petty & the Heartbreakers e o próprio “Nevermind”, do Nirvana. Isso tirando o fato que só haviam sido fabricadas mais três mesas iguais no mundo.
Porque não contar a história da mesa? Mas como contar a história dela sem passar pelo Sound City? Nascia assim o documentário “Sound City” que conta a história da mesa, do estúdio e dos discos que ali foram feitos. Mas isso é só o começo. Porque “Sound City” é, na verdade, uma grande declaração de amor dos músicos para uma era onde o digital e a música na nuvem eram apenas especulação. O que reinava era o analógico, o som bem tirado dos instrumentos, a captação perfeita e gravação em fita.
Para um fã de Fleetwood Mac como eu, é particularmente interessante ver Mick Fleetwood falando do primeiro contato que teve com Stevie Nicks e Lindsey Buckingham – exatamente no Sound City, onde a dupla tinha gravado o subestimado “Buckingham Nicks” e onde Fleetwood estava à procura de um estúdio para o próximo álbum. As declarações de amor não param por aí. Dos funcionários do Sound City a artistas como Rick Springfield, Metallica, Tom Petty e Rage Against The Machine (cujo primeiro disco foi gravado no Sound City, ao vivo, e com platéia), todos exaltam a acústica perfeita da sala, o ambiente e principalmente a mesa Neve.
Numa era onde a música é feita em notebooks e com o custo perto de zero, chega a ser surreal ouvir falar de discos que custaram 100 mil dolares e demoraram meses para serem gravados. Mas antes que você imagine que “Sound City” é um doc para iniciados, eu vou logo dizendo que não. Porque o sentimento que está por trás dele, é universal e pode ser entendido por qualquer um de nós: a paixão pela música em seu estado bruto.
Estava falando sobre Ginger Baker outro dia, percebi que o doc sobre sua vida entrou em cartaz na última sexta e cheguei até aqui. A última vez em que o Cream tocou junto.
Perguntados sobre o porque de o Cream não ter continuado depois desta série de shows, Eric Clapton e Jack Bruce foram bem claros e disseram algo do tipo “não tem como seguir adiante com Ginger”. Mas de uma forma bastante tranquila, carinhosa.
Anyway, vale a pena rever este clássico.
Há alguns dias estou querendo escrever sobre “The Real Football Factories”, a excepcional série que a ESPN vem exibindo, sobre o holliganismo. Incrível como uma série desta, no chamado país do futebol, não teve uma repercussão maior. Talvez porque seja uma série antiga (2006), mas com o tema é atemporal e eu não me lembro de isso ter sido exibido na tv, a atenção deveria ter sido maior.
Em poucas palavras, na série, o britânico Danny Dyer percorre o mundo atrás dos grandes confrontos de torcidas, no estádios de futebol e fora deles. São muitos os relatos e cenas de brigas, assassinatos, gritos de guerra, demonstrações de ódio, que frequentemente são confundidas com o sentimento oposto por quem participa delas. Através de depoimentos que beiram o inacreditável, vemos integrantes de torcidas organizadas justificarem a violência em nome da paixão que sentem pelo clube. O episódio da Turquia – o mais recente exibido – é particularmente impressionante porque retrata a rivalidade existente entre torcedores do Galatasaray e do Fenerbache de uma forma tão crua e próxima que por vezes chegamos a acreditar que aquilo não passa de uma ficção. Como pode a Turquia, um país tão belo e convidativo, ter duas torcidas tão violentas?
Confrontos que tem suas raízes em questões raciais, outros que surgem no futebol mas logo tomam outras proporções. Tudo isso é retratado nessa série bem oportuna para a discussão do assunto em um país que respira futebol, está prestes a sediar uma Copa do Mundo e constantemente repensa seu modelo, claramente desgastado.
Aliás, falando em modelo, já leram este texto?
Veja um trecho do episódio em que ele vem ao Brasil:
Todo mundo que gosta dos Rolling Stones precisa assistir a “Crossfire Hurricane”, o novo documentário, dirigido por Brett Morgen, exibido pela HBO (deve chegar ao Brasil em breve). Se levarmos em consideração que é difícil encontrar alguém que não goste da banda, chuto aí que uns 90% da população mundial economicamente ativa (e os inativos também) devem assistir a este filme.
“Crossfire Hurricane” tem muitos acertos. O primeiro, e principal deles, é focar em um determinado período da história da banda. Assim, Morgen evita a perda de ritmo em seu filme e consegue detalhar mais este intervalo, que vai do início da carreira da banda até 1974, mais ou menos. O segundo acerto é colocar os depoimentos dos seis stones sobreviventes (os quatro que ainda fazem parte da banda + Mick Taylor e Bill Wyman) em off, sem mostrar as imagens. Assim, vemos os quase setentões narrando com uma precisão invejável os acontecimentos que fizeram parte da carreira da banda neste período.
E aí está o terceiro acerto do filme. Este intervalo periga ser o mais rico em número de acontecimentos, que vão de shows famosos (Altamont, Hyde Park) a prisões por drogas com uma enorme repercussão, passando, claro, pela morte de Brian Jones, a entrada e saída de Mick Taylor da banda (por medo de se afundar demais na heroína, como ele mesmo confessa) e a chegada de Ron Wood.
E tome imagens impressionantes de arquivo! Cenas até então inéditas de bastidores misturadas a outras de shows, apresentações na tevê e até mesmo algumas que já vimos em outros filmes (“Gimme Shelter” e “Cocksucker Blues”, principalmente), cujas inserções fazem todo o sentido no contexto final. Assim como fazem sentido as imagens de shows posteriores ao período retratado no filme. É como se Morgan estivesse dizendo “esta rica história que vocês acabaram de ver foi apenas o começo de tudo”.
E tome uma edição primorosa! Desde a sincronia das imagens com o que os seis stones falam às cenas de shows e apresentações, cujas emendas são imperceptíveis, tudo funciona no filme e é um deleite para quem gosta da carreira da banda. O bônus (involuntário?) é uma espécie de aula de história deste período, com destaque para a Swinging London do final da década de 60, o flower power, a era hippie e o fim de tudo isso, em Altamont. Tudo muito sutil, sem a preocupação de ser didático, e por isso mesmo de fácil absorção.
Não é o melhor filme dos Stones, mas é uma bela homenagem aos 50 anos da banda, focando em uma época sempre interessante e musicalmente instigante. Para os Stones e para o mundo.
TRAILER: