Há 12 anos, quando da primeira passagem de Morrissey pelo Brasil, o inglês não andava de bem com a vida. Era o auge da batalha judicial que o impediu de gravar durante anos e ele, assim como eu e você, sabemos que é preciso paz de espírito para que o trabalho possa ser realizado com maestria. Você pode não ser um artista mas não é difícil perceber que, entrar num palco de mal com a vida, não é um indício de que o show será impecável, por mais profissional que este artista seja.
Tudo isso aí em cima foi somente para dizer que agora, em 2012, é tudo diferente na vida de Morrissey. Se em disco, o cantor está em uma ótima fase, com três belos discos na sequência (“You Are the Quarry”, “Ringleader of the Tormentoes” e “Years of Refusal”), que se reflete também em cima dos palcos. Curiosamente (ou não) é desta fase o grosso do repertório do show que ele tem apresentado pela América Latina e que os brasileiros podem conferir esta semana.
A primeira apresentação aconteceu no último dia 7 em Belo Horizonte para um Chevrolet Hall lotado em sua maioria por pessoas na faixa etária 35-45, como era de se esperar. Morrissey abriu o show postando a banda na frente do palco, para que todos pudessem ler a mensagem que estava escrita nas camisetas: “Assad is Shit”, numa referência ao presidente sírio Bashar Al Assad. Na sequência, a primeira música do show – e uma das melhores de sua carreira solo – “First of the Gang to Die”.
Mas e os Smiths, onde entram nesta história? Se tem uma coisa que pode ser “criticada” no show de Morrissey (além do som do Chevrolet Hall, que esteve em um de seus dias ruins), é a escolha das canções de sua ex-banda para entrar no setlist. Não que as escolhas sejam ruins, mas se grande parte do público que estava lá conhecia Morrissey apenas por dois ou três clássicos como “Bigmouth Strikes Again” e “The Boy With The Thorn In His Side”, porque não entregar isso? Enfim, escolhas são escolhas e a crítica tem que parar por aí. Porque não dá pra dizer que um show com “Still Ill”, “Meat Is Murder” (a canção mais impressionante musicalmente do show, com a ótima banda desconstruindo a dramática melodia), “I Know It’s Over” (a mais emocionante do repertório, que levou muita gente às lágrimas), “There is a Light that never goês out”, “Please pelasse pelasse let me get what I want” e “How Soon Is Now?” seja ruim.
Show impecável? Quase, não fossem algumas escorregadas exatamente nesta escolha do repertório. Eu eliminaria “Black Cloud”, “Ouija Board, Ouija Board”, “Speedway” e “When last I Spoke to Carol”. Só que aí é minha opinião e Morrissey deve saber o que faz colocando-as em seu show. Talvez para se manter feliz – sentimento que ele demonstrou várias vezes durante a apresentação, fazendo juras de amor ao público belorizontino. Em determinado momento, chegou a se perguntar “Será que estou mesmo aqui?”, como quem duvida da realidade. Talvez Morrissey prefira cantar algumas destas canções para manter seu bom humor, que atingiu o auge antes de “Speedway”, quando ele perguntou ao público se eles queriam escolher a próxima canção, para na sequência emendar um “Mas vocês não podem!” E tome urros do público de BH, que mantem a longa tradição de jogar flores no palco durante as apresentações do cantor.
“O mayor inglês vivo”, “o poeta do rock”, “o dândi predileto da música”. Chamem-no do que quiserem. O importante nesta turnê brasileira é Morrissey proporcionar diversão ao público brasileiro e também se divertir. Neste sentido, mercadologicamente falando, a entrega do serviço é perfeita/
1- “First of the gang to die”
2- “You have killed me”
3- “Black cloud”
4- “When last I spoke to Carol”
5- “Alma matters”
6- “Still ill”
7- “Everyday is like sunday”
8- “Speedway”
9- “You’re the one for me, fatty”
10- “I will see you in far off places”
11- “Meat is murder”
12- “Ouija board, ouija board”
13- “I know it’s over”
14- “Let me kiss you”
15- “There is a light that never goes out”
16- “I’m throwing my arms around Paris”
17- “Please, please, please let me get what I want”
18- “How soon is now?”
Bis: “One day goodbye will be farewell”
O chapa Marcelo Costa viu os dois shows do Morrissey na Argentina e conta aqui como foi.
E ainda fez um video:
Começa nesta quarta, por Belo Horizonte, a turnê brasileira de Morrissey. Depois, ele vai para o Rio, na sexta, e São Paulo no domingo.
A pedido do Pampulha, fiz uma listinha com cinco músicas que eu gostaria que estivessem no setlist e a importância delas. Vamos lá:
1. I KNOW IT’S OVER
Música do mais importante disco dos Smiths, “The Queen Is Dead”. Fala sobre o fim de um relacionamento ou um impossível, ninguém sabe ao certo, já que Morrissey é mestre em escrever letras enigmáticas. O que importa é que durante décadas, muita gente sofreu (e ainda sofre) ouvindo-a nos momentos mais tristes relacionados ao amor.
2. EVERYDAY IS LIKE SUNDAY
Música do primeiro disco solo dele, “Viva Hate”, de 1988. Foi o segundo hit de sua carreira solo (o primeiro foi “Suedehead”, do mesmo disco) e marcou seu primeiro recomeço, depois do fim da banda que o transformou em um mito.
3. I KNOW IT’S GONNA HAPPEN SOMEDAY
Música que está em “Your Arsenal”, disco de 1992, e para muitos seu melhor. Foi regravada algum tempo depois por ninguém menos que David Bowie.
4. IRISH BLOOD ENGLISH HEART
Música de “You’re The Quarry”, disco de 2004 que marca a volta de Morrissey aos discos depois de uma batalha judicial de quase sete anos, que o impediu de gravar. A letra reafirma suas origens inglesas e irlandesas, e fala da situação política dos dois países naquela época.
5. THAT’S HOW PEOPLE GROW UP
Música que está em “Years of Refusal”, mais recente disco de Morrissey, lançado em 2008. e saudado por toda a imprensa especializada como o disco que marca o processo de amadurecimento musical do cantor.
Hoje tem Morrissey no Globo, na Folha de SP e no Estado de Minas. Para facilitar sua leitura, juntei as três entrevistas feitas por Bernardo Araújo, Lúcio Ribeiro e Mariana Peixoto em uma só. Não vou dizer quem fez qual pergunta, até para virar uma brincadeira.
Existe algo especial em voltar ao Brasil neste momento de sua carreira? Lembra-se dos shows de 2000?
Fiquei surpreso em saber que vendi tantos ingressos para esta turnê no Brasil. E fiquei completamente perplexo com a repercussão da última vez em que estive no país. Você sabe o quanto os EUA e a Inglaterra acham que são o centro do mundo. Então, é difícil saber como as coisas são no Brasil.
Eu me dou bem nos EUA e na Europa, mas meu alcance na mídia lá é quase sempre invisível. Então, fica implícito que todo grande sucesso vem das pessoas de quem você ouve falar… O que não é o meu caso! Acho que sou confuso demais ou muito provocador para a mídia lidar comigo, porque eu não sou uma pessoa”¦ simples. Então, é sempre uma surpresa.
Baseado na grande repercussão que foi o anúncio de seus shows, a impressão que temos é que, no Brasil, você ainda mantém um intocável status de artista cult, mesmo entre o público mais jovem. Acredita que isso é fruto da internet?
Não sei ao certo o que significa ser cult. Sempre achei que significasse que poucas pessoas se interessam por você. Há muito tempo me chamam de “artista cult” e “indie”, mas nenhum desses termos é verdadeiro. Eu simplesmente não sou uma puta da mídia, que faz qualquer coisa para aparecer. Acho que todo mundo está deprimido com essa nova era da música porque parece que ela só se interessa por músicas sem sentido.
Em todo o lugar que você vá, ouvirá músicas inexpressivas –tocam techno-dance em todas as lojas de departamentos, lojas de sapatos e elevadores, porque ninguém está realmente ouvindo aquilo. Você nunca vai ouvir uma canção com conteúdo social num salão de beleza ou na TV.
Se você perguntar a uma vendedora de loja como ela consegue ouvir aquela música alta o dia todo, ela vai sempre responder: “Ah, eu me desligo”. É assim a música moderna. Você não tem a permissão de escolher a canção que quer escutar. Você é bombardeado na cabeça com música que outros escolhem para você ouvir. E assim ela se torna insignificante.
Como faz para manter a sua carreira viva sem um contrato com um selo para lançar um CD e vivendo na era do download gratuito? Ainda se sente relevante para a música?
Eu me sinto triste porque nenhuma gravadora quer assinar comigo. Isso diz muito sobre a indústria da música nos dias de hoje. Ela está efetivamente morta agora.
Não é que ela esteja morrendo: já morreu! As gravadoras a mataram ao bagunçar as paradas de sucesso e por assinarem contratos com moleques de 15 anos que ficariam emocionados em fazer tudo isso sem um contrato.
Sigo porque gosto de cantar e, até o momento, tenho um público que quer minhas músicas. Mas minhas razões para continuar não significam nada para as gravadoras.
Você ouve música nova, bandas novas?
Acabo ouvindo de tudo, mas a maioria dos novos artistas matam a música. E a imprensa musical –o que sobrou dela!– vai sempre “hypar” seus amigos, escrever sobre os amigos e inventar premiações para os amigos, mês sim, mês não. Mas, no fundo, acho que não existe uma só pessoa neste planeta que ache que haja esperança para a música moderna.
Como você se sente quando é chamado de lenda? Você ouve muito sua própria música? O que acha dela?
Acho que a palavra lenda significa algo que pode ou não ser verdade. Não significa o que as pessoas geralmente acham que significa! Historicamente, sempre estive em uma posição de credibilidade, e, depois de 30 anos, ninguém pode me acusar de ser uma puta ou um escravo. Isso certamente quer dizer alguma coisa. O orgulho que tenho da minha música certamente incomoda muita gente, mas eu acho que ele é cheio de verdade, além de continuar significativo até hoje. Por favor, não me jogue no mesmo lugar em que está o resto das piranhas do pop.
Você enxerga alguma influência sua na música de hoje em dia? De que artistas novos você gosta?
Eu acabo ouvindo tudo, mas as pessoas, na maioria, são atrozes. A imprensa musical — o que sobrou dela! — fala bem dos amigos, só escreve sobre os amigos e inventa prêmios para entregar aos amigos mês sim, mês não. Mas não tem ninguém no planeta que ache que a música moderna tem salvação.
É verdade que você completou sua autobiografia? O que se pode esperar dela?
Sim, acabei de escrever a minha autobiografia, e estou muito orgulhoso. Os elefantes invejam a minha memória. É uma história fascinante. Na Inglaterra, obviamente, a minha vida se resume principalmente a batalhas jurídicas, acusações de racismo e críticas assassinas, mas nos outros países é muito diferente, ela é vista de forma muito positiva. Tudo isso está documentado. Os nomes dos inocentes serão publicados, e os culpados, protegidos. (Ele já disse à revista “Billboard” que o livro é “tão longo quanto ‘Moby Dick’” e que sua data de publicação, em dezembro deste ano, permitirá que ele “desapareça no Brasil central”.)
Você critica muito as letras da música pop, dizendo que elas não têm significado. É difícil escrever uma boa letra? Você se envergonha de alguma que compôs?
Algumas não envelheceram tão bem. Mas, depois de 30 anos, isso é de se esperar. De modo geral, tenho muito orgulho. É incrivelmente raro ouvir uma boa letra pop em 2012, e a ideia de esperar impacientemente para ouvir uma música nova de um artista porque você quer saber o que ele tem a dizer é absolutamente antiquada.
Você já emitiu opiniões radicais sobre música, ao falar de gêneros como o reggae e o rap. Você ainda os acha tão ruins?
Sempre adorei reggae. Em 1984, eu disse, brincando, a um jornal musical britânico que “o reggae é nojento”. Eles me levaram a sério, e essa afirmação está por aí até hoje. (Ele inclusive tem reggaes no repertório, como “Redondo Beach”.) Não gosto de rap porque nele não há melodia vocal, e porque eu me sinto como se estivesse sendo golpeado na cabeça, em vez de me permitirem simplesmente ouvir uma obra musical. Além disso, o rap geralmente é ouvido por pessoas que querem mais o barulho do que a substância. O rap hoje em dia é tocado por toda parte, em situações que não têm o menor significado, porque as pessoas parecem não estar ouvindo. Ele simplesmente está lá, enchendo o saco.
Como ativista do meio ambiente, você acompanha as notícias a respeito da política brasileira em relação à Floresta Amazônica? O que acha dela?
A Amazônia brasileira e o meio ambiente em geral estão sendo, em sua maior parte, destruídos para que se abra espaço para a indústria da carne. Se as pessoas continuarem a comer animais, o mundo vai para a merda. Se os líderes mundiais se importassem com o meio ambiente, eles fechariam os abatedouros. Mas eles não farão isso. E nada disso tem a ver com o fornecimento de comida. A única preocupação é o lucro.
Você morou na Itália e em Los Angeles. São lugares melhores para se viver do que a Inglaterra? De que outros países você gosta?
No momento, estou apaixonado por Santiago. É uma cidade tão bonita, calma e feliz… A minha cabeça é muito inconstante, então, na próxima semana, provavelmente vou querer morar na Islândia, embaixo da terra. Meu ideal, na verdade, seria morar em uma igreja enorme. Mas elas raramente aparecem no mercado, e devem ser muito caras para se aquecer. Já estou me vendo, pendurado nos sinos às 18h, todas as tardes, vestindo uma longa batina e cantando “The world is full of crashing bores”. (Música dele cujo título significa “O mundo está cheio de grandes chatices”.
Você já afirmou, várias vezes, que não espera viver o bastante para voltar a gravar por uma gravadora. É um grande paradoxo não ter contrato, já que tem uma base de fãs fortíssima. Como compositor, não sente vontade de gravar novamente, já que existem opções que independem de uma gravadora?
Compus dois álbuns que não serão lançados por nenhuma gravadora. Não tenho 17 anos. Ninguém sabe o que fazer comigo. Sim, tenho uma imensa base de fãs em muitos, muitos países. Mas isso parece não fazer diferença para as gravadoras. Evidentemente, sou um grande desafio. Talvez tenha sido sempre assim, não? Sim, fico triste por não conseguir lançar novas canções. Porém, não quero entrar para um obscuro selo independente que não tenha uma forte estrutura de divulgação, porque isso vai dar aos meios de comunicação outro motivo para me ignorar. Eu quero estar no lugar principal, junto com todo mundo.
Você sempre foi um crítico feroz da política em suas músicas. Vivemos numa era de crise econômica e política. Como você vê o mundo hoje?
Não acho que hoje em dia alguém tenha ilusão sobre políticos, primeiros-ministros e presidentes. Todos eles têm ideias ultrapassadas e, uma vez eleitos, não fazem absolutamente nada pelas pessoas que os elegeram. Democracia é uma ilusão e isso ficou evidente nos Estados Unidos com os protestos Occupy, que a polícia logo reprimiu com violência. Na Inglaterra, a família real é uma ditadura e você não pode ir contra, a não ser que esteja fora do campo de visão dela. Acredito fortemente no poder das pessoas, e tudo o que ocorreu no Oriente Médio é um grande estímulo. Todos os líderes mundiais, sem exceção, são ditadores, e eles nunca vão desistir do poder sem ferir seu próprio povo. Políticos são puro ego e poder, e absolutamente nada além. E é por isso que as pessoas, no mundo todo, perderam sua fé neles. Se você olhar para os candidatos republicanos para a próxima eleição presidencial dos EUA vai ser simplesmente impossível não gargalhar. São eles o melhor que a América consegue produzir? Obama não merece um segundo mandato, mas vai conseguir porque os republicanos parecem moradores de um hospício. Essa não é a maneira que o mundo deveria ser tratado. Pessoas genuinamente boas não entram para a política.
Durante um tempo, acreditou-se que você era o autor do blog Morrissey’s World (http://morrisseyswoeld.blogspot.com), o que você negou. O que acha de todo mundo ter uma opinião sobre tudo nos dias de hoje e postar nas redes sociais?
Não sou o autor de Morrissey’s World, que é perigoso e me causou problemas. A internet faz com que qualquer um se torne um crítico e, de uma maneira geral, o impulso de certas pessoas é machucar e destruir porque elas podem fazê-lo na segurança de seus quartos de Guerra nas estrelas numa simpática e pequena Iowa. Por outro lado, internet é o poder das pessoas, e isso é bom, porque torna os críticos musicais inúteis. As pessoas estão pensando por si próprias, o que significa a morte da inocência. Os jornais tentam te contar o que está acontecendo, mas veja como agora as pessoas do Oriente Médio podem fazer seus próprios relatos em seus telefones e laptops. O governo sírio, por exemplo, não pode mais sair escondendo a verdade. Isso faz você pensar sobre todas as injustiças do passado e como sempre estivemos à mercê da imprensa controlada.
Você é um grande ativista do vegetarianismo e dos direitos dos animais. Acha que evoluímos nesse quesito nos últimos 30 anos?
O abuso de animais é hoje discutido em todos os lugares. Os restaurantes têm opções vegetarianas só porque os donos concluíram que boa parte dos clientes iria embora se os vegans não pudessem se alimentar. Curiosamente, a indústria da morte – da carne – está lutando de maneira muito forte. Isso acontece porque sabem que estão perdendo. Minha crença é simples: não deverás matar. Também acho que você pode avaliar uma pessoa pela maneira que ela trata animais. Geralmente, pessoas que são cruéis com animais também o são com seres humanos e com o próprio planeta. A questão mais importante é que as pessoas estão, agora, pensando seriamente sobre a comida. Como consequência, há uma compreensão geral de que redes como KFC e McDonald’s não são apenas ruins para os animais, como também para as pessoas e o meio ambiente. A chamada indústria da carne é um desastre para o meio ambiente, mas os líderes mundiais ainda não fizeram restrições por causa da quantidade de dinheiro que o ato de matar animais gera.
Por nós, entenda-se “América Latina”. Ontem ele se apresentou no festival de Viña del Mar, no Chile. Como foi? Olha aí. Vou colocando mais videos, na medida em que forem aparecendo.